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Conversas P'ra Mesa com Inês Tomada

Mitos e verdades sobre a Alimentação Infantil


Quem é a Inês Tomada?


O meu nome é Inês Tomada, sou licenciada em Ciências da Nutrição e mestre

em Nutrição Clínica pela Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da

Universidade do Porto, e doutorada em Metabolismo, Clínica e Experimentação

pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Sou Nutricionista

Especialista em Nutrição Clínica, e dedico-me à Nutrição da Mulher, da Criança

e do Adolescente, exercendo atividade clínica independente em Lisboa, no Porto

e em Braga.

Desde 2009, sou Professora Auxiliar Convidada na Escola Superior de

Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa.


As crianças podem ficar hiperativas devido ao consumo de açúcar?


Não. Tanto quanto é do meu conhecimento, à data, não existem evidências

científicas que comprovem a associação entre o consumo de açúcar e a

hiperatividade em crianças saudáveis. Aliás, há vários trabalhos que

demonstram claramente que o açúcar não afeta nem comportamento nem a

performance cognitiva das crianças.

Mas este é um mito muito presente nos pais. Os pais tendem a confundir a

alegria ou excitação da criança quando come doces com hiperatividade.


O leite de vaca não pode ser oferecido às crianças?


O leite de vaca não deve ser oferecido às crianças até aos 12 meses e,

obviamente, estará proscrito posteriormente em casos muito particulares e

clinicamente documentados, como por exemplo a Alergia às Proteínas do Leite

de Vaca. Excetuando estas situações, a partir do 1º ano de vida, não há razão

para privar a criança do leite de vaca. O leite é um alimento nutricionalmente

rico. Tem proteínas de alto valor biológico, vitaminas e minerais, como o cálcio,

essenciais a um organismo em crescimento e desenvolvimento. Importa referir

que o leite deve ser oferecido às crianças sem aditivos, seja cacau, chocolate,

açúcar ou mel.


O iogurte é uma escolha saudável para sobremesa?


Não, de todo. O iogurte não deve ser escolhido como sobremesa. A sobremesa

deverá ser fruta, preferencialmente fresca e da época.

Comer um iogurte no final do almoço ou do jantar, não só vai enriquecer a

refeição em proteína (e muitas vezes em açúcares!), como vai comprometer a

absorção de nutrientes importantes. Em concreto, numa refeição onde foi

consumida carne ou peixe, legumes e/ou leguminosas ricos em ferro, o cálcio

presente no iogurte, irá diminuir a absorção intestinal do ferro. Por outro lado, a

absorção intestinal do cálcio também poderá ser diminuta, devido aos fitatos e

oxalatos presentes em alguns vegetais.

O iogurte é um alimento muito interessante, sim, mas a ingestão deve ficar

reservada para o pequeno-almoço e lanches.



A obesidade na infância deve ser desvalorizada porque “com o tempo tudo passa”?


A expressão “o tempo cura tudo” não se aplica quando o tema é obesidade. A

obesidade é uma doença crónica e, como tal, requer tratamento para toda a

vida! É urgente mudar o paradigma de que “quando crescer passa” porque,

infelizmente, na grande maioria das vezes o problema não se resolve com o

crescimento. Desvalorizar a obesidade infantil hoje, é promover o seu

agravamento no futuro.


O aumento de peso da mãe durante a gravidez influencia o peso à nascença do bebé?


Sim, definitivamente. Muito embora existam outras causas que influenciam o

peso do bebé ao nascimento de forma independente ao ganho de peso materno.

Mas importa aqui referir que, quer o ganho de peso insuficiente, quer o ganho de

peso rápido e excessivo durante a gestação tem repercussões fetais, e reflexo

não só no peso à nascença do bebé, mas também na sua saúde futura.


A obesidade infantil pode ser hereditária e por isso “não há nada a fazer”?


Todos sabemos que não existe uma única causa para a obesidade. A obesidade

é uma doença multifatorial, que envolve a interação entre vários fatores desde

comportamentais a genéticos, com forte influência do ambiente.

A causa genética é uma realidade que não pode ser descurada, mas em bom

rigor “não se herda a obesidade”, herda-se sim a vulnerabilidade para a

obesidade. Ora assim sendo, há muito a fazer! E sem dúvida alguma, a

magnitude da doença pode ser atenuada pela adoção de um estilo de vida

saudável, onde se incluem os bons hábitos alimentares e a prática regular de

exercício físico.


A atuação do nutricionista só faz sentido depois do desenvolvimento total da criança?


Não, não e não. A atuação do Nutricionista deve começar mesmo antes da

criança nascer! Sabemos que desde fases muito precoces do desenvolvimento

humano, na dependência da alimentação materna, o feto é exposto a diversos

fatores nutricionais que serão determinantes para a sua saúde não só ao

nascimento, mas longo de toda a infância, adolescência e vida adulta. Então,

será desde o momento em que os casais decidem serem pais que a intervenção

do Nutricionista deve começar.

Protelar a orientação nutricional até ao desenvolvimento total da criança, é

permitir o enraizamento de hábitos alimentares, hábitos estes que podem, por si

só, condicionar o seu potencial máximo de desenvolvimento!


Há algo mais que queira acrescentar sobre este tema?


O papel do nutricionista não deve ser apenas visto como o profissional que

minimiza o impacto das doenças, mas também daquele que orienta a

alimentação no sentido de prevenir o desenvolvimento de doenças, seja da

obesidade seja de qualquer outra doença crónica e degenerativa. Prevenir é

sempre mais fácil, mais económico e mais eficaz, do que tratar.


Obrigada, Inês!



Comida que podia comer para o resto da vida: Comida italiana!!!


Livro favorito: Não tenho propriamente um livro favorito. Tenho vários! Seria injusta se enumerasse uns em detrimento de outros.


Viagem de sonho: Quando regressar, conto!


O sonho que ainda falta concretizar: Tenho alguns, mas guardo-os para mim.


Hábito ou mania que ninguém compreende: Rasgar papel em pedacinhos muito pequeninos. Mesmo quem me conhece bem, respeita, mas custa-lhe entender.


Se quiserem conhecer melhor a Inês, sigam-na em @inestomada_nutricao ou visitem o site www.inestomada.pt.

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