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Conversas P'ra Mesa com Cecília Carvalho



Vamos falar de Obesidade Infantil!


Quem é a Cecília?


Sou a Cecília, nasci no Brasil e escolhi morar no Porto. Gosto de conhecer e conversar com as pessoas, estudar e de viajar. Tenho dois filhos gémeos que são verdadeiramente dois filhos únicos! Sou nutricionista, com mestrado e doutoramento em Nutrição. Durante 33 anos cumpri o papel de docente no Curso de Nutrição na Universidade na qual me graduei (UERJ, Brasil). Além de dar aulas e acompanhar alunos nas suas atividades de estágio sempre na área pediátrica, neste tempo atuei também em investigação e atendimento à comunidade principalmente em obesidade infanto-juvenil. E foi no hospital universitário que implantamos meu projeto do coração: o Ambulatório de Pesquisa e Assistência em Obesidade Infantil que conta com equipa multidisciplinar a trabalhar de modo interdisciplinar. Atualmente continuo a colaboração com este Ambulatório e pratico a nutrição clínica pediátrica em clínica privada.



A partir de que idade considera que os pais devem estar atentos ao peso dos filhos?

Eu refaço esta pergunta para: desde quando devemos estar atentos à saúde de nossos filhos?

E claramente a resposta é: desde sempre ! A saúde é mais que o peso (que é consequência) e o cuidado com ela envolve não apenas a física mas também a mental. Boas escolhas e práticas em ambiente doméstico, de brincadeiras e lazer, alimentares e de comunicação são a chave para a saúde e, porque não dizer, de crescimento e desenvolvimento adequados da criança. Se o peso está discordante do adequado, a origem não deve ser somente uma!



A obesidade infantil é reversível ?


Sim. A criança está em processo de desenvolvimento e crescimento, pelo que necessita de energia, macro e micronutrientes para que suprir as necessidades para tal. A depender da idade esta “correção” do peso ideal para a idade pode dar-se de forma mais ou menos rápida. Idealmente sob orientação de um nutricionista que deve seguir os guias nacionais/internacionais, ouvir atentamente a família e a criança para orientar a adequada abordagem e não impingir uma alimentação restritiva sob risco de prejuízo tanto do crescimento quanto do desenvolvimento em curso.



A genética rege a obesidade?


Sim, mas não só! A obesidade é uma doença e na sua maioria é influenciada pela ação de um conjunto de genes implicados tanto na instalação da obesidade quanto na sua manutenção e até na gravidade. Sabe-se também que a resposta ao tratamento pode ser determinada por estes genes. Entretanto a evidência científica mostra-nos que estes genes se expressam ou não (são ativados ou não) conforme o contexto ambiental: fatores do estilo de vida entre os quais se incluem a alimentação, os comportamentos e hábitos, o stress, as atividades físicas, os hábitos de trabalho e de consumo, entre outros. Esta modulação dos genes pelo ambiente ocorre desde sempre e determina, na verdade, como alguns de nossos genes se vão comportar.



A seletividade alimentar pode coexistir com a obesidade?


Sim. Considero uma via de mão dupla. Apesar de não sermos pragmáticos, a criança com obesidade pode ser seletiva alimentar e a criança que apresenta seletividade alimentar poderá acumular tecido gordo em excesso. Crianças com peso superior ao adequado para sua estatura geralmente comem de forma mais rápida, distraidamente, colocam grandes pedaços do alimento na boca, e assim podem não se aperceber do sabor, do cheiro, da textura e consistência. Os alimentos preferidos são aqueles que lhes dão saciedade e não lhes faz pensar do tipo “ui, um alimento diferente!” pois a criança não está disposta a perder tempo e assim seleciona e diminui o leque de alimentos. Geralmente são alimentos e produtos altamente palatáveis e de alta densidade calórica, cujos principais ingredientes são do grupo dos açúcares e das gorduras, além de conterem intensificadores de sabor.


E o outro lado: o menino que tem seletividade alimentar pode vir a acumular peso em demasia na medida em que seleciona determinados tipo de alimentos ou produtos de acordo com a textura, a cor, o odor, a aparência, o sabor, por exemplo ou até mesmo alguma questão biológica ou trauma que o impeça de comer determinado alimento. A rigidez pode fazer parte do comportamento desta criança que não lida bem com a surpresa, o desconhecido e o inesperado. Assim como são os alimentos naturais de acordo com as estações, por exemplo. A escolha de alimentos industrializados oferece a segurança, o padrão, a certeza do que vai sentir ao comer aquilo. E geralmente são estes os alimentos mais palatáveis, os ricos em açúcares e gorduras e muitos aditivos alimentares. Neste cenário o ganho de peso em excesso pode ocorrer.



O bullying a pessoas com esta doença pode agravar ou reverter a situação? Que tipo de impacto tem o bullying nestas pessoas?


Certamente o bullying agrava a situação na medida em que quem o sofre tende a afastar-se do convívio social, envegonhar-se nas práticas de atividades físicas em grupo, diminuir a frequência nas aulas e desportos, baixar sua auto-estima, "desgostar" de seu corpo, deprimir-se, isolar-se. E o alimento é utilizado como reforço, consolo e aconchego, o que perpetúa ou agrava o quadro de obesidade. Nem sempre a criança relata aos pais o que está a sofrer e o aconselhamento psicológico é muito importante nesta situação. O nutricionista deve estar atento para encaminhar atempadamente.



Existe diferença na importância que é dada à Obesidade Infantil em Portugal e no Brasil?


A prevalência de crianças com peso acima do adequado para sua altura em Portugal (excesso de peso e obesidade) e no Brasil ( excesso de peso e obesidade) assemelham-se, rondando os 30% entre as crianças de escolas da rede pública (PT) e nos centros de saúde da rede pública (BR). Percebo que a importância que é dada no meio da Saúde não difere muito nos dois países e o que realmente importa é o que se faz (ou se pode fazer) com a importância que se dá na esfera de decisões políticas e de orçamento. As políticas públicas de saúde existem nos dois países e a gestão política é que premeia a implementação das ações efetivamente colocadas em prática.



A educação e o ambiente familiar podem influenciar a obesidade infantil?


Definitivamente! Para sobreviver precisamos de comer mas a Humanidade encontrou no ato de se alimentar mais do que isso. As famílias têm a responsabilidade de educar as suas crianças para a saúde e o bem estar e oferecer a alimentação mais natural e fresca que for de seu alcance. A ciência mostra-nos que crianças e adolescentes que tem o hábito de realizar as refeições em família escolhem uma alimentação mais saudável, com moderação no uso dos alimentos menos naturais. A criança aprende pelo exemplo e por aí já disse tudo!

A propagação da literacia alimentar e nutricional, importantíssima, deveria ocorrer em forma de “spray” e sem demora por que é muito importante que as famílias façam suas escolhas com informações corretas nas mãos.



Há algo mais que queira acrescentar sobre este tema?


Sabemos que não há um fator isolado responsável pela instalação da obesidade; é de caráter multifatorial. Assim, não há solução simples para uma situação que não é simples. Requer conhecimento, trabalho em equipe, um processo cuidado e de escuta ativa das famílias. As consequências do estado obeso são múltiplas e por vezes fatais. Não é justo deixarmos as nossas crianças sofrerem por algo que podemos evitar que ocorra. Gostaria de deixar a palavra de ordem que é PREVENÇÃO. E isto faz-se com cuidados na alimentação, no convívio, nas escolhas, nas orientações, nos ambientes familiar e escolar.



Obrigada, Cecília!


Comida que podia comer para o resto da vida: qualquer uma com bacalhau.


Livro favorito: Médico de Homens e de Almas de Taylor Caldwell.


Viagem de sonho: Egito


O sonho que ainda falta concretizar: Voltar a ter uma casa própria.


Hábito ou mania que ninguém compreende: contar silenciosamente (1, 2, 3, 4...) sem necessidade, como os degraus que subo ou desço, as colheradas de cacau no leite, as marteladas que dou no prego...


Se quiserem conhecer melhor a Cecilia, sigam-na em @ceciliacarvalho_nutri

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